Francisco Diemerson de Sousa Pereira
(Para Vinicius Gonzaga)
Todos aqueles que desenvolvem trabalhos de pesquisa acadêmica sobre gênero, em suas variadas nuances, têm acompanhado com especial cuidado o desenrolar da discussão relacionada às declarações polêmicas do deputado Jair Bolsonaro, levantando pesadas e ofensivas opiniões sobre os movimentos homossexuais. Não se trata apenas das idéias defendidas por um político que marcou-se pela intolerância ao respeito pelo outro, mas é um momento impar para provocar-se uma reflexão ampliada sobre as raízes dos preconceitos culturais, ora velados, ora revelados, que se marcam dentro das instituições políticas e sociais, atentando contra todos os princípios básicos da cidadania.
Também é importante destacar que diante das declarações do parlamentar, que beirando ao ridículo não devem ser desconsideradas, os movimentos sociais, não somente os LGBT, levantaram suas críticas para exigir uma efetiva ação dos órgãos responsáveis para inibir que idéias como estas se tornem marcantes nos meios de comunicação e, com mais firmeza, na esfera do poder público, espaço que não pode assumir quaisquer posições de desrespeito aos indivíduos em suas singularidades.
Outra situação que percebo de maneira especial nesta movimentação, é de que o medo e o silencio que marcavam as ações relacionadas ao desrespeito aos gays está sendo enfrentada de maneira efetiva, nas escolas, nas ruas, nas ONGs, na internet, por mais variados mecanismos, respondendo claramente que não se pode calar perante a intolerância que se incorpora em determinados setores da sociedade.
Desde outubro de 2010, um movimento singular tem surgido em Aracaju buscando justamente este confronto, de maneira inteligente, provocando em suas reuniões domingueiras, permitir que a discussão sobre a sexualidade e a vivencia da homoafetividade (ou qualquer um dos termos que se procurar para a cultura homo) seja encarada com naturalidade pelo fato de ser natural.
Formado por uma variedade de jovens, gays e héteros, o grupo tem agido de uma forma que é rara nestas terras, buscando, primeiramente, compreender as marcas individuais de cada um de seus membros para produzir um discurso coletivo, não no sentido de unificar e transformar o grupo em um plural de jovens que buscam fugir desta repressão da moral presente na sociedade, mas formar um movimento provocante, que desfaz determinados sentidos para construir uma teia com todas as experiências de cada um de seus membros, uma multiplicidade de sentidos, de experimentações, de trocas e de saberes.
O grupo se tornou uma marca no espaço onde se fincou, o parque da sementeira, coração verde de Aracaju. Sem obrigar-se, sem estar preso aos sistemas tão comuns de controle para criação de agrupamentos, o movimento tem sido uma constante na vida de seus membros pelo simples fato de agregar um valor uníssono, uma vontade múltipla, uma necessidade de todos: o respeito, a tolerância, a cidadania.
Creio que é esta a grande mensagem que podemos exigir dos organismos sociais e públicos, combater a homofobia não é defender os gays, é dar sentido ao que é cidadania, buscando implantar, de maneira coerente, os discursos de igualdade, de liberdade e de fraternidade que se tornaram base para as sociedades ocidentais.
Se não buscarmos caminhar para esta necessidade de respeito, estaremos entrando em uma rota de desrespeito às individualidades, os homossexuais serão apenas os primeiros de uma perigosa ação para se cassar, de violentar e ofender as pessoas pelo básico direito de manifestarem suas personalidades.
Não adianta mais reter-se e ignorar todas estas movimentações: o tempo do silencio já passou. Chega de armários, chega de guetos e chega de coléricos defensores de uma moralidade vazia e ignorante. É hora de lutamos pelo respeito à singularidade de cada individuo na busca por uma sociedade que respire e vivencie uma contemporaneidade múltipla e potente.
(*) Professor da Faculdade Pio Décimo, Mestrando em Educação pela UNIT. Membro da Arcádia Literária e do Grupo de Pesquisas em Educação, Cultura e Subjetividades (UNIT/CNPq). Sócio da SBPC e membro do Grupo MEXAM-SE.
Nenhum comentário:
Postar um comentário